______Versão on-line do zine Canibal Vegetariano______

Somos loucos apaixonados por rock, buscando sempre divulgá-lo de forma independente, sem jabá e amarras.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Leptospirose: Puro Rock'n'Roll - Entrevista com Quique Brown

A banda Leptospirose, da vizinha cidade de Bragança Paulista, está lançando o segundo albúm (Mula Poney) em uma carreira de sete anos. Aproveitando a deixa, nós do zine Canibal Vegetariano, batemos um papo com Quique, vocalista e guitarrista, para que ele comentasse o atual momento da banda, turnês e as perspectivas com relação ao futuro do "Leptos".Além de tecer comentários sobre os eventos em que trabalha e todo o processo de gravação do novo disco.

A banda (Quique à esquerda)

Canibal Vegetariano: Quique, para começarmos, fale sobre a gravação do novo albúm "Mula Poney", desde a pré produção até o lançamento.
Quique: Velho Mula Poney é doidera pura, rock
and roll, forever young desde sempre. Pouco tempo depois do lançamento do “Invernada” Mozine me ligou dizendo que Rafael Ramos tinha pirado no disco e que queria produzir o próximo, ficamos felizassos com essa história e fomos compondo material em silêncio, quando fomos pra Europa grande parte do repertório do Mula Poney já estava no nosso ‘set list’ e com isso na mão, fomos aperfeiçoando os sons, chegamos no Brasil, fomos compondo outros sons até que juntamos 18 canções, ligamos pro Mozine, que ligou pro Rafael, que ligou pra nóis pedindo uma demo toscona estilo ensaio gravado em fita K7 e após receber o material mandou um e-mail dizendo faixa a faixa o que deveríamos ensaiar, marcando em seguida uma data lá no estúdio dele (Estúdio Tambor). Ensaiamos durante uns 45 dias todos os dias (mentira hehe) das 9 às 10 da manhã. Saímos de Bragança na segunda-feira 4 de agosto, chegamos no Rio umas 7 da manhã e fomos direto pra praia tentar encontrar a Eva Wilma mas nem rolou. Chegamos no estúdio na hora do almoço e dali, até às 4 da manhã do dia 8, o bicho pegou geral, disco gravado todo ao vivo, 50, 100, 150 takes de cada som tudo muito no talo, no pau, com bateria sem pele de resposta, um Vox monstro pra guitarra e um Orange pro baixo. As gravações eram muito intensas chegávamos no estúdio depois do almoço e íamos diretão até as 4, 5 da manhã, dávamos uma dormida, um pulo na praia e assim foi... Fizemos a captação do som e viemos embora, faz três dias que o disco chegou e o lance ficou muito monstruoso, agressivo, pesado, doidão, tenso, as músicas vieram grudadinhas, tipo mal termina o último acorde de um rock e a música seguinte já comparece. Neste momento estamos finalizando os lances pra lançar geral em várias cidades ainda este ano e várias outras no ano que vem.

CV: Em entrevistas com as bandas dos anos 80 e 90, se
mpre o pessoal perguntava "Existe uma pressão para que o segundo álbum seja melhor que o primeiro". No cenário independente de hoje, isso existe? Você acredita que o "Mula' seja o albúm que irá catapultar o Leptos no cenário nacional?
Q: Velho pra nóis aqui, este segundo lançamento passou total no teste do segundo álbum hehe, se existe alguém na pressão aqui
é o terceiro disco, pois esse sim (pelo menos por enquanto) tá fudido hehe. Acho que é um lance meio natural, Darwin saca? Quanto ao lance de catapulta acho que dentro do segmento alternativo subiremos alguns degraus com esse disco novo.


"É impossível viver da grana advinda de uma banda de rock independente no Brasil hoje em dia." (Quique Brown)

CV: Falando em cena nacional, como está a cena em nossa região? Principalmente Campinas e Bragança, que são duas cidades que
estão apresentando festivais e muitas bandas lançando discos de autoria própria.
Q: Velho o lance tá caminhando bonito até, várias bandas surgindo, se estabelecendo, travando contatos e por aí vai ... Em Campinas tá massa pra tocar depois de um longo inverno, tá tranqüilo agitar shows por lá, aqui tem o Jethro´s Bar do nosso amigo e lendário dono de bar Chups e alguns outros bares começando a abrir espaço pro independente com
o o Acervo do Tuzzi por exemplo.

CV: Vocês estão realizando uma turnê pelo Nordeste. Trace um comparativo da região Sudeste, Nordeste, os países vizinhos e Europa, de como é a estrutura de cada lugar, o público e etc.

Q: Cara o Nordeste eu ainda não conheço, mas dá pra perceber que o lance lá é bem bonito, galera empenhada em fazer acontecer, todo mundo divulgando junto, rádios marcando entrevista nos dias dos shows e por aí vai. Uma coisa que ainda é meio complicado por lá é a dificuldade radical de tocar durante a semana tipo: segunda, terça e tal ... No Sudeste o lance tá bacana mas poderia estar bem melhor, muitas cidades do interior de São Paulo conseguem hoje em dia organizar shows com uma certa facilidade, o que não necessariamente significa dizer que existem bares de rock em um monte de cidades e tal e sim bares que tipo deixam você montar uma estrutura, cobrar uma bilheteria e por aí vai. Um amigo meu: o Sergio Ugeda da ( A ) Amplitude Records tá agitando várias tours com shows todos os dias, por enquanto a parada (ainda em fase experimental) rola apenas no interior de São Paulo, mas a idéia central do rock é tour de 90 dias direto do Oiapóque ao Chuí.
Nos países vizinhos o lance é mais ou menos que nem aqui mesmo, na Argentina, principalmente em Buenos Aires, o lance é meio tenso graças àquela parada doida da discoteca que pegou fogo, mas mesmo com a fiscalização em cima e as várias exigências de alvará neguinho faz rolar.

No Uruguai a estrutura é fora do comum, amplificadores valvulados, passagem de som, mesas digitais, cerveja, volume no máximo e Mothorhead.
Na Europa a fita é sinistramente profissional, é ultra normal e tranqüilo fazer 30 shows em 30, dias por exemplo.
Uma tour de banda independente para dar ce
rto precisa necessariamente pelo menos pagar a diária do conjunto todo dia e pra que isso aconteça é radicalmente preciso que rolem shows todos os dias. Acho que o lance tá caminhando e só tende a melhorar geral.

CV: O Leptos, chega ao segundo disco, entre este e o primeiro, tem um split lançado junto com o Merda. Vocês já tocaram na Argentina, Uruguai e em alguns países europeus como a Alemanha. Fale um pouco sobre esses shows e quais os planos da banda para o futuro?
Q: Levando em conta que a onda estrutur
al foi respondida na questão anterior fica pra esta pergunta a questão emocional hehe fomos e voltamos (destas tours) sem dinheiro, é um lance meio egotrip que fica guardado na memória, pra num evento familiar ou de amigos a gente daqui 20 anos ficar contando pra geral com tipo, seu filho te olhando com o olho arregalado pensando coisas como: “Caralho-porra, pai louco do cão” Sua mulher dizendo como foram os dias de solidão em casa com as crianças pequenas, com todo mundo dando risada, se amando, convivendo etc. É uma experiência de vida incrível.
Falando na questão dos shows vou pegar três aqui: Buenos Aires “Remember Pub” quinta feira 31/08/2006 coisa doida total, lugar pequeno com umas duzentas pessoas espremidas e trocando fanzines d
entro. Montevidéu “BJ Bar” domingo 03/09/2006 equipamento de som gigantesco, passagem de som, cerveja, Motorhead e vontade de botar algodão na orelha, Nunchritz (Alemanha) “Kombi” juventude skate punk total, diversões eletrônicas!!! Os planos pro futuro são basicamene divulgar loucamente o Mula Poney, e tocar nos festivais independente de grande porte.


"Dentro da net o lance é monstro, rápido e de fácil acesso, mas cá entre nós, nada é tão monstro, quanto ler um zine impresso cagando, né?" (Quique Brown)

CV: Gostaria que você fizesse alguns comentários sobre o livro que você lançou, "Guitarra e Ossos Quebrados", e também falasse sobre seus projetos com o rock. Por exemplo, você continua com o Rock na 9? Cardápio Underground e etc... e o Jardim Elétrico?
Q: Muito doido lançar livro bicho, adorei escrever a parada, adorei o processo, os lançamentos, a recepção do público etc. Massa total! Recebi muitos e-mails de gente que leu e tal, great all! Os projetos não param né? É um lance doido que faço por que curto, o estilo Japan Way, pocket música, correria etc. O Rock na 9 já era, foi muito massa organizar isso durante uns três ou quatro anos só que já era, não da mais, os órgão públicos não conseguem entender um monte de coisas e neste caso não tem o que fazer a não ser pular pra outros pontos, outras atitudes pois como diriam os Beastie Boys "(You Gotta) Fight for Your Right (to Party!)". A 9 chegou num ponto onde bastava você organizar um evento lá pra tomar uma multa de 1.500 reais mais os honorários do seu advogado. Saiu recentemente uma matéria linda sobre o Mukeka di Rato onde num determinado momento o cara diz que: “... ‘O estado democrático de direito e seus órgão fiscalizadores’ como o Ministério Público (cujas iniciais interessantemente refletem sua atuação…MP - manda proibir o que não está fazendo mal a ninguém (shows de rock, raves etc…) e manda pouco no que se refere a defesa dos reais interesses do povo ...” matéria completinha aqui: http://www.iu.art.br/?p=3693 . O Cardápio Underground continua monstruoso, trata-se de um evento multicultural que rola todos os anos no mês de outubro, ano que vem a parada vai pra sua sexta edição consecutiva. A Escola de Música Jardim Elétrico é um projeto recente meu e do Velhote baixista do Leptos, trata-se de uma escola de música com cursos de tudo quanto é instrumento, estúdio para ensaio e prática de conjunto e loja de discos, CD's, camisetas, livros, revistas etc. Tamo começando, o lance tá ficando bonito. www.fotolog.com/escolaeletrica

CV: Você também é zineiro. Fale sobre a importância desse meio de comunicação (se é que tem alguma), para o cenário musical atual, blogs, orkut e como você acredita que a música será consumida e divulgada daqui a alguns anos?
Q: Zines, e-zines, blogs, rádios, web rádios etc. são veículos radicalmente importantes para a veiculação da informação independente. Dentro da net o lance é monstro, rápido e de fácil acesso mas cá entre nós, nada é tão monstro, quanto ler um zine impresso cagando, né? Ainda não sei como a música será consumida daqui uns anos, só sei dizer que com os ipods o lance tá meio tosco já que ao meu ver ele raramente funciona como os clássicos walkmans, na época dos walkmans a gente tinha em casa um disco ou fita que era passado pro k7, que poderia então ir com a gente pra todo canto. Pra ter uma fita você ia, na casa do amigo, ficava lá trocando idéia enquanto a fita era gravada e tal ... Acredito que este processo mais lento coopera mais com a assimilação completa da música. Hoje em dia é comum uma criança chegar pra você e dizer: “ - Baixei a discografia do Frank Zappa”. E aí eu penso: Como esse cara vai fazer pra ouvir e assimilar isso de uma vez? Particularmente eu prefiro ficar 5, 6, 7 anos atrás de um disco do que tipo me contentar com um link. Nada me impede de baixar uns lances e tal, mas a idéia central é ter o produto final em 7, 10 ou 12 polegadas, em CD e tal. Não consigo imaginar o futuro, acho que o consumo de mídias tende a diminuir radicalmente nos próximos anos, já estão sendo vendidos por aí (EUA, Europa e Japão) LP's que vem com um cartão de memória pra você abaixar o disco uma única vez. As bandas ganharão dinheiro com shows, camisetas, ringtones etc. E os discos serão disponibilizados na net ou adquiridos em vinil, CD, cartão de memória ...

CV: Atualmente, você acredita que é possível uma pessoa largar tudo, e viver de música em nosso país com banda independente? O que é sucesso para você?
Q: É impossível viver da grana advinda de uma banda de rock independente no Brasil hoje em dia. O que o cara pode fazer é ser multifacetado tipo ter uma loja independente, uma banda, uma mini produtora de shows, uma estamparia etc. Caso contrário é tenso. Se daqui uns anos for possível organizar shows todos os dias Brasil afora, aí sim poderá haver alguma esperança pros jovem que souberem trabalhar legal, entrar numas de encarar uma vida doida – on the road – por pelo menos alguns anos.
Bicho sucesso é um lance amplo né? Basicamente é aquilo que emplaca, desde produtos de supermercado, passando por marcas de roupa, carros e pessoas. O conceito global de sucesso está meio falido, a pegada hoje é bem mais intimista – particular – de rede, ou seja neguinho faz sucesso no seu bairro, no clube, etc.

CV: Qual o recado você pode dar para a molecada que tem seus 13, 14, 15 anos e que estão começando a descobrir o rock?
Q: O conhecimento não tem fim.

CV: O espaço é seu para as considerações finais. Valeu pela entrevista. Nos encontramos por aí.
Q: Ivan, valeu por tudo meu chefe.

www.myspace.com/leptospirose
www.fotolog.com/leptospirose
cardapiounderground@hotmail.com


Um comentário:

chiveta disse...

ótimas perguntas e respostas! Mestre Quique mandando bem como sempre... e Mula Poney é monster all!
:-)

abrá,
tibiu