______Versão on-line do zine Canibal Vegetariano______

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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Catexia: tesão pela música

Divulgação
Formada há pouco mais de um ano, em Franca [interior de São Paulo], a banda Catexia lançou recentemente um single com três canções instrumentais que deixam qualquer amante da boa música com sorriso de orelha a orelha. Para saber mais sobre o quarteto formado por Carlos Gomes [guitarra], Lucas Misu [guitarra], Rafael Martins [baixo] e Renan Ruiz [bateria], conversamos com o responsável pelas baquetas para que ele explicasse o som que tem cativado muitos roqueiros.

Canibal Vegetariano: O que é Catexia e por qual motivo este nome para banda? 
Renan Ruiz: Catexia é - simplificando um conceito muito mais abrangente que é de Freud - um processo interior de representação do desejo, da líbido. É a cristalização subjetiva da vontade de realizar algo. Escolhemos esse nome pois ele representava,quase que exatamente, a ideia que discutiamos enquanto a banda se formava. A pergunta para construir esse nome foi: 'o que a gente sente enquanto toca?' A resposta estava pronta: 'tesão'. E quase que o nome da banda foi tesão (risos). Mas catexia, pra gente, é nesse sentido: a vontade, o tesão, a instiga, que se tem por alguém, por algum objeto, por alguma história, por uma música, por um livro, por qualquer coisa. É algo como sua energia interior acumulada ligada a algum objeto,ação, coisa, sentimento.

CV: Rolei o som de vocês no programa A Hora do Canibal e muitos ouvintes piraram. Quais as influências da banda e porquê optaram por fazer som instrumental?
RR: Porra, quando alguém se sente ‘tocado’ pelo nosso som é algo maravilhoso pra gente: especialmente  nesse primeiro trabalho de estúdio. "A Voz do Brucutu" surgiu como um vômito: algo que você sabe que está vindo e não tem como controlar.  Além da gente ter gravado ainda muito cedo enquanto ‘músicos’ , o álbum não teve nenhum plano de mídia, nenhuma parceria para divulgação, nem nada. Nosso sonho era parir essas 3 músicas e deixá-las registradas para sempre, e tinha que ser naquele momento. O que eu tô querendo dizer é que em meio a essa caos de informação que vivenciamos hoje, "A Voz do Brucutu" veio como algo totalmente sem pretensão e acabou chegando a ouvidos que nunca imaginávamos que iria chegar, isso é maravilhoso.
Cara, sem querer ser relativo demais, mas eu acho que tudo que a gente vive, vê e ouve é influência pra gente.  Quero dizer: não é só música. É óbvio que a música preenche uma lacuna importante da nossa vida enquanto indivíduos e compositores, todavia nossa ‘influência-máxima’ é nunca pensar a música apenas enquanto música,  apesar de o ser enquanto forma/linguagem. Compor - se encontrar pra tocar -  é poder sair fora de sí mesmo, é, antes qualquer outra coisa, ter a possibilidade  de libertar o lado mais sombrio da nossa subjetividade em forma de sons e ruídos: nesse sentido, não importa  tanto ir pelo caminho musical A ou B. Isso é consequência. Acho que a gente é muito influenciado, além da música, pela nossa convivência (moramos juntos), pelas atividades vinculadas à UNESP de Franca (onde a gente estuda e trabalha), por jogos online e amores deixados para trás. Além disso, nosso ‘gosto’ musical também não é homogêneo. Quero dizer: nem os integrantes gostam do mesmo tipo de som, e nem somos fechados (individualmente falando) a ponto de se ‘vincular’ a um ‘estilo’, gênero ou coisa parecido: eu sinto que estamos na fase mais eclética de nossas vidas. Mas citando algumas bandas que  lembro de ter ouvido com os meninos ultimamente, eu citaria o Tame Impala, Grupo Pé-Ante-Pé, Neil Young, TruckFighters,  entre muitas outras. Sobre o caminho instrumental: foi uma consequência. Consequência da nossa convivência, da ansiedade em tocar essas músicas, do momento que a gente vivia quando formamos a banda e, até mesmo, da falta de alguém pra cantar  e também da raridade de expressões em textos  a gente conseguisse musicar.  Lembra que eu disse logo acima que, pra Catexia, não importa tanto ir pelo caminho musical A ou B (ou C, D . . .)? Por isso que o instrumental veio, para nós, como consequência. Foi fruto da nossa ansiedade coletiva naquele momento. Isso não significa que a gente não conheça música instrumental, muito pelo contráio, depois de se firmar enquanto grupo, muito conversamos e discutimos  a especificidade desse estilo. Além disso, depois de um tempo, criamos uma identidade dentro do instrumental, mas isso não foi um projeto prévio. No nosso caminho enquanto banda, o instrumental foi (e ainda é) a saída mais viável pro que a gente espera da nossa música.  A gente tem bastante medo desse viés instrumental as vezes soar demasiadamente subjetivo. Pensando nisso, o próximo álbum deve sair com algumas imagens e narrativas pra  gente tentar explicar melhor do que se trata.



CV: O interior do estado de São Paulo tem demonstrado uma riqueza muito grande na qualidade de bandas. Para vocês, há alguma explicação para isso? Visto que antes, todo músico pensava em mudar para capital.
RR: Acho que não só São Paulo como o Brasil, desde o final dos anos 70, apresenta uma riqueza bem interessante na qualidade de bandas. O problema é que essas bandas/artistas não tem a divulgação que merecem, não chegam ao grande público, se chegam é em pequena escala. Eu acho que, no geral, o interior melhorou muito nos últimos tempos a partir das novas tecnologias, entretanto tanto a capital como o interior ainda precisam melhorar muito (em quantidade de bares e locais pra tocar, na periodicidade de eventos, no apoio público [estatal], na quantidade de bandas, na forma de pagar [ou não] cachê, na aparelhagem adequada, etc) pra dar conta de ‘sustentar’ as bandas que  o Brasil 'produz' e que -  infelizmente - se apresentam e circulam poucas vezes durante ano.

CV: Algum de vocês, ou todos, tem formação musical profissional? Vocês conseguem viver de música?
RR: O único de nós que tem formação musical é o Rafael (rica), nosso novo baixista. Ele é formado em teoria e sua entrada na banda tem sido uma experiência bem interessante. Contando com ele no nosso time, nossas possibilidades de interpretação musical se abrangem bastante e estamos todos bem empolgados com isso. Não, ninguém vive de música.

CV: Quais são os locais que vocês costumam se apresentar?
RR: Depende. Apesar de não vivermos de música, a gente se dedica muito pra Catexia dar certo e ser sustentável. Ocupamos um grande espaço do nosso tempo ensaiando, produzindo, compondo, estruturando material/release/site, marcando turnês, etc. Ou seja: a gente se apresenta nos lugares que ofereçam a estrutura mínima pra isso acontecer: ter um som interessante, pagar uma ajuda de custo mínima, ter um local adequado pra gente dormir e comer, essas coisas.  Onde a gente não vai passar perrengue e tem um som legal fazer nosso barulho, já era. Em Franca tem bastante festa universitária, mas a gente nunca é chamado pra tocar nelas, já me disseram que nosso som é triste e estranho demais pra isso. Contrariando essa 'tendência': temos duas apresentações agendadas em festas universitárias aqui da cidade, provavelmente será uma experiência bem interessante.

CV: Como vocês avaliam a cena musical brasileira atualmente, não apenas no rock.
RR: Então, essa é uma pergunta bem difícil e abrangente. Mas eu ressaltaria um aspecto que vem me tirando o sono nesses últimos tempos: o mito da banda ‘independente’. Explico. Atualmente, tenho percebido um discurso que enaltece a posição 'independente'. Colocando como se banda/artista 'independente' fosse alguma característica que destaca sua obra. Quero dizer: não porquê é 'independente' que é bom. Não é porquê é 'independente' que as pessoas precisam ouvir. Ou então, outro exemplo e, pior: quando os artistas justificam a falta de entrosamento, a má qualidade em seu disco, por ser 'independente'. Quero dizer: o ser 'independente' não significa que você vai fazer mal feito as ações que uma grande gravadora faria por você. Significa que você vai ter que trabalhar e se dedicar em dobro (triplo, quadruplo...) para conseguir -  sem a mesma estrutura das grandes empresas - realizar produções de qualidade. Entende? É como se 'estivesse tudo bem' em ser 'independente'. Mas porra, não tá.  A gente tem que estar preparado para 'concorrer', disputar, e tentar ocupar os espaços nos grandes meios de comunicação, pra conseguir gravar em estúdio de primeira qualidade, para ter um agenciamento de turnês mais viável, etc, etc. Quero dizer: temos que continuar batalhando pelos espaços que estão reservados à produções musicais padronizadas e não achar que está tudo bem e na perfeita harmonia, só porquê existe o viés 'independente'.

CV: Quais os planos da banda para 2014? 
RR: Fazer mais apresentações com a nova formação, lançar o videoclipe da música ‘Inferno’, cujo enredo está sendo trabalhado por um grande amigo e escritor aqui de Franca, o  Leonardo Stockler. Gravar e lançar o nosso segundo EP, as novas músicas estão quase todas prontas. O projeto musical vai envolver uma narrativa e um trabalho visual para acompanhar as músicas que, juntas, darão forma ao enredo.

Divulgação

CV: Como vocês veem a importância da internet na divulgação do trabalho de vocês? 
RR: Essencial, mas ainda pouco explorada. Acho que nossa música é mais digna do que a do Luan Santana e eu queria que a internet me desse as mesmas proporções de divulgação que ele contém. Eu sei que isso é utopia, mas não acho que a internet salvou a produção musical ‘independente’ dos mesmos problemas que já continha desde antes da revolução digital.


CV: Deixo espaço para considerações finais. 
RR: Queria agradecer ao Canibal vegetariano  e dizer que a gente se identifica muito com esse tipo de movimentação comunicacional: vemos como essencial essa batalha contra os grandes meios de comunicação, que moldam modos de pensar, que administram nosso âmbito cultural e, que racionalizam a produção da música. Nesse sentido, as produções como a de vocês  são providenciais para não deixar a comunicação morrer no marasmo safado do padrão das grandes produtoras (que hoje em dia é mais forte do que nunca).

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