______Versão on-line do zine Canibal Vegetariano______

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domingo, 6 de julho de 2014

'Devemos deixar de ser paga-pau de gringo'

Arquivo Pessoal
A frase acima foi dita por um dos nomes mais importantes da cena metal da região de Jundiaí, Rafael “Barba” Morassutti, falou ao blog/zine Canibal Vegetariano. Em um longo bate papo, ele falou sobre seus novos projetos e também comentou sobre o fim de uma das bandas mais legais da cena trash, a Stupid Vision. A conversa, na íntegra, você acompanha a partir de agora.

Canibal Vegetariano: Rafael, atualmente você toca em quatro bandas, entre elas e Hmennon. Fale um pouco de cada. Em todas você é baixista?
Rafael Barba: Sim, 3 são autorais e uma cover. Sou baixista em todas, mas em uma também faço o vocal principal.

HMENNON
Na estrada desde 2006, a banda faz um som pesado com letras cantadas em português, uma mistura de Raimundos com Charlie Brown Jr., tem uma proposta bem diferente das bandas nacionais que estão na cena hoje. Lançamos o EP “Na Hora H” em 2011, com 3 faixas, um clip em 2012 e em 2013 lançamos o single “Conflito”, com um “lyric video” também. E para 2014 pretendemos gravar um full album.
DHARMA 101
Banda formada em 2009. Uma pegada mais hard rock internacional. Entrei na banda em 2013, substituindo Felipe Andreoli, que gravou os baixos das 12 faixas do CD lançado em 2013 intitulado “Beautiful Kharma”. Na verdade fui chamado para fazer um “free lance”, mas estou no line up da banda até então.
GODZORDER
Thrash metal, formada em 2013. Um estilo de som mais agressivo, pesado e cadenciado. Nessa banda faço baixo e vocal principal. Tem apenas um single lançado até o momento, está “engatinhando” ainda, mas tem feito vários shows e já tem material suficiente para um full album. Talvez grave um EP em 2014.
ED FORCE ONE
Cover de Iron Maiden Formada em 2009 com a intenção de fazer apenas um show tributo a banda em um evento em Jundiaí. Mas devido a tamanha repercussão positiva por parte do público, decidiu-se manter o projeto. Hoje a banda conta com mais de 40 músicas em seu repertório e continua se apresentando pela região.

 CV: E a linha musical dessas bandas, é a mesma, ou alguma difere da outra? Como você controla sua agenda?
RB: Bom, como você pode ver, todas são bandas de Rock, porém são 4 estilos bem distintos, cada um com sua própria “pegada”, timbre e característica. Eu praticamente encarno um baixista pra cada uma, tipo... o Rafael que você ve tocando no Ed Force One não é o mesmo tocando no Hmennon ou no Dharma 101 ou no Godzorder, saca...
E quanto à agenda, primeiramente nunca marco nada que eu não tenha certeza que vou conseguir cumprir e desse modo até agora não tive problemas. Já cheguei a tocar com duas bandas no mesmo dia em cidades diferentes e já houve caso de as 4 bandas tocarem num mesmo mês, no mesmo dia, no mesmo evento, no mesmo palco. Daí tem que saber administrar bem a coisa toda pois são muitos ensaios, reuniões com todo mundo, correria. Mas consegui dar conta dos compromissos.

CV: E as gravações? Você já gravou com todas essas bandas? 
RB: Gravações oficiais em estúdio, com produtor somente com o Hmennon. Com o Godzorder houve a gravação do single, mas a própria banda produziu junto com o dono do estúdio.

CV: Qual foi sua maior influência para ser baixista e há quanto tempo está na estrada?
RB: Minhas maiores influências foram (e ainda são) James Hetfield e Max Cavalera.
Isso é curioso porque sou baixista e tenho influências de guitarristas/vocalistas, embora não sirva pra tocar guitarra. O único baixista que eu considero ter me influenciado foi Rex Brown, do Pantera. Comecei a tocar em 1992, já em uma banda. Aprendi a tocar sozinho. Nunca fiz aulas com professores.

CV: Falando em influência, quais suas bandas favoritas?
RB: Metallica, Sepultura (fase com o Max), Pantera, D.R.I., Ramones, Slayer, Anthrax, Testament, Machine Head, Fight (um projeto já extinto do Rob Halford), Macabre, Alice in Chains, Raimundos (fase com o Rodolfo), Megadeth, Nirvana, Iron Maiden, Brujeria...  Minha identidade musical se deve a essas influências.

Arquivo Pessoal 

CV: Vamos falar um pouco sobre a Stupid Vision. Como ela começou e qual motivo para o fim. Existe possibilidade de retorno?
RB: Cara, essa é uma looooooonga história. Acho que ainda vou escrever um livro sobre isso (risos). O que posso dizer é que foi minha primeira banda, começou em 1992 tocando só cover de bandas de rock e metal, e chegou a acabar em 1995. No ano seguinte fui convidado a entrar em uma banda que ainda não tinha nome, mas tinha o mesmo propósito musical, e assim sendo sugeri restaurar o nome Stupid Vision para continuar com o projeto. Tocamos algumas vezes, inclusive em Itatiba. Em 1997, após a saída do então vocalista, acabei por assumir a voz principal e começamos a compor e nesse mesmo ano aconteceu o primeiro show com essa formação, que, com exceção do segundo guitarrista que mudou umas quatro vezes, se manteve até 2008, quando o primeiro guitarrista deixou a banda uma semana antes de um show que iria rolar num evento na região. O novo segundo guitarrista havia entrado há pouco tempo, o baterista vinha se mostrando desanimado, não dava tempo de achar um substituto para tocar no show e não tínhamos ensaiado. Então, com receio de manchar a imagem da banda, achei melhor cancelar a apresentação. Depois disso a banda simplesmente se dissolveu e sumiu da cena.
Quanto à retornar, nunca descartei essa possibilidade pois, para mim, fiquei “devendo” aquele show que cancelei. E também porque todos que conheceram a banda me perguntavam se não ia voltar, e diziam que era foda, puta som legal... E isso entrava na minha mente e me tirava o sono!
Então, depois de 5 anos, decidi que era hora de retomar o projeto. Convoquei novos integrantes, que inclusive já conheciam e gostavam da banda. Começamos a ensaiar e o negócio fluiu como se nunca tivesse parado. Foi então que em junho de 2013 o Stupid Vision subiu ao palco pela primeira vez depois de 5 anos de silêncio, e eu senti que consegui sanar minha “dívida”. Porém, este foi definitivamente o último show do Stupid Vision.
Novos tempos, novas ideias, novos integrantes, nova imagem. Isso pedia por uma nova identidade. Aquele espírito e aquela energia intensa permanece, hoje renovados numa nova banda que se chama GODZORDER.

Arquivo Pessoal

CV: O cenário musical independente passa por momento muito bom. E o metal independente, como tem rolado no Brasil?
RB: Não sei dizer se posso responder a nível de Brasil, mas vejo bandas independentes alçando voos bem altos totalmente por conta própria, se livrando de intermediários e apostando em parcerias diretas para atingir seus objetivos. As bandas estão se preocupando cada vez mais em apresentar um trabalho de boa qualidade e isso vem fortalecendo o underground, atraindo mais fãs e mídia.

CV: Você vê alguma mudança positiva do cenário musical de quando você começou para hoje?
RB: Tudo evoluiu de certa forma, desde a qualidade das bandas aos equipamentos de som, estúdios... E essa interatividade da banda com o público, esse contato mais direto através da internet tornou a coisa mais dinâmica e frenética. Já não se precisa esperar tanto tempo para ver o resultado do seu trabalho perante a mídia. Porém, hoje tudo começa muito rápido e dura muito pouco. Difícil ver bandas evoluindo dentro da sua própria proposta musical.
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CV: Como é a cena em Jundiaí e na região?
RB: Não considero que no Brasil exista uma cena metal underground, acho que ainda falta muito para isso se solidificar por aqui. Estive nos Estados Unidos em 2012 em turnê com uma banda e vi que lá a coisa é bem diferente. A galera faz funcionar e acontecer e todos participam, respeitam e valorizam. E lá não existe banda cover! Por aqui posso dizer que já foi melhor até os idos de 2004, 2005. Depois disso a cena, tipo, se “prostituiu”, se perdeu na onda das bandas cover, virou balada e o rock virou moda. Todo mundo toca ou quer tocar e ninguém mais quer ser plateia. Só há o mais do mesmo, o cover do cover. Perdeu-se o interesse pela criação por parte de quem toca, pois perdeu-se o interesse do público em conhecer algo novo. E isso já está saturado, andando em círculos e logo vai se enterrar no próprio buraco que já cavou.
Mas parece que isso ta mudando, ou pelo menos está dando indícios que vai melhorar. A coisa está querendo se reciclar e vejo isso em outros lugares também, com bandas já extintas retomando o trabalho, lançando material novo mostrando que ta na hora de acabar com essa” baguncena”. Como se estivessem voltando para mostrar que essa galerinha da nova geração não soube representar o underground e só poluiu o ambiente com entulho musical. Isso está impulsionando a coisa toda para cima. Espero e quero que continue assim.

CV: Agradeço pelo papo e deixo espaço para suas considerações finais.
RB: Quero agradecer pela oportunidade de me expressar, é um grande prazer pra mim, e dizer também que acredito que no Brasil é possível SIM ter uma cena metal underground sólida e respeitável, mas para isso acontecer é preciso acabar com o individualismo, com a hipocrisia, com a molecagem e aprender a valorizar o bom trabalho dos artistas nacionais, e isso vale pra todo tipo de manifestação artística.
Devemos deixar de ser “paga-pau” de gringo e nos dar ao respeito de valorizar nossos próprios talentos, quando dignos de mérito. É assim que a coisa começa a acontecer de verdade... Um grade abraço à todos!

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