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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

O encontro da Filosofia Existencialista com Bob Dylan e a Jovem Guarda


Por Ivan Gomes

O professor e filósofo brasileiro Mario Sergio Cortella, em uma de suas palestras, citou um trecho do livro do Apocalipse, da Bíblia, que diz: “Deus vomitará os mornos, pois não é quente nem frio...” Quando pensei no texto para esta edição da Raro Zine, essa fala veio imediatamente em minha mente, pois nas palavras que virão, irei abordar o encontro da Filosofia Existencialista, principalmente de Sartre e Camus, com músicas influenciadas nas obras de Bob Dylan e da Jovem Guarda.

O encontro inusitado ocorreu no disco lançado em 1987 pela banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, o segundo trabalho de estúdio dos caras, denominado “A Revolta dos Dândis”. Importante destacar que os gaúchos formaram uma das bandas mais odiadas e amadas do país, por isso a lembrança da fala do Cortella mencionada no início do texto.

“A Revolta dos Dândis” é o nome de um dos capítulos do livro “O Homem Revoltado”, escrito pelo filósofo franco-argelino Albert Camus. Segundo Humberto Gessinger, letrista dos Engenheiros do Hawaii, o disco era para levar o nome de “Facel Vega”, nome do veículo no qual Camus era passageiro quando se acidentou e morreu em decorrência da gravidade dos ferimentos.

Além da citação do capítulo da obra de Camus no nome do disco, “A Revolta dos Dândis” serviu de inspiração para duas músicas, divididas em parte 1 e 2. À época do vinil, as faixas abriam os respectivos lados. As letras, tanto da parte 1 quanto da 2 estão recheadas de ideias baseadas em obras de Camus e do filósofo francês Jean Paul Sartre.

No refrão da faixa de abertura, Humberto canta: “eu me sinto um estrangeiro, passageiro de algum trem, que não passa por aqui, que não passa de ilusão...” O refrão faz clara referência a outra obra de Camus, “O Estrangeiro”. Nesta obra, a personagem principal apresentada por Camus é Meursault, alguém que é indiferente a tudo e a todo momento, para várias situações, diz “tanto faz”. Mas, a vida sempre nos coloca em situações de escolha e uma das principais teses do existencialismo é a angústia que sentimos em relação a isso, não há como viver sem escolher, o fato de não escolhermos entre um e outro é uma escolha.    

Ainda sobre o refrão é possível notar a influência de Sartre que diz que a existência precede a essência e com isso somos lançados no mundo, um mundo que existe há muito tempo antes de nossa chegada e que tem suas próprias regras. Neste mundo, há escolhas e a partir daí podemos nos sentir um estrangeiro, como Meursault, que fica indiferente e não dá a mínima às escolhas.

O sentimento de ser algo que não se encaixa pode ser “o estrangeiro, passageiro de algum trem”, um trem que é uma mera metáfora do que é a vida, uma vida que não passa por ele, pois é indiferente às escolhas, uma vida que não passa de ilusão. A ilusão citada na canção pode ser uma fuga de responsabilidades. Algo que não se encaixa no pensamento existencialista.

A vida é a todo momento uma escolha, gera angústia e a pressão de escolha constante, para algumas pessoas, faz com que elas busquem possível fuga de uma realidade que não foi engendrada por nós. Em apenas uma canção, há toda uma carga existencialista que pode ser trabalhada, refletida e gerar ainda mais angústia. 

E a angústia trazida pelo compositor fica na frase: “entre americanos e soviéticos, gregos e troianos, entra ano e sai ano, sempre os mesmos planos. Entre a minha boca e a tua, há tanto tempo, há tantos planos, mas eu nunca sei pra onde vamos...”

Toda essa angústia é cantada de maneira arrastada com uma melodia marcada por violão e gaita, com imensa influência de Bob Dylan. A música ainda tem baixo e bateria nas marcações, mas ela segue arrastada do início ao fim, que cria todo clima denso para o pensamento existencialista.

JOVEM GUARDA

Com uma abertura de disco que remetia ao folk dos anos 60, do século passado, algo que ia totalmente na contramão do que outras bandas brasileiras faziam à época, pois os Titãs lançaram, em 1986, o “Cabeça Dinossauro”, o Camisa de Vênus eram tidos como punks, os Paralamas iniciavam flerte com estilos influenciados por música latino-americana. O RPM era a banda que mais utilizava da tecnologia e os Ratos iniciavam uma busca por um som cada vez com mais peso e distorção.

Como estavam totalmente na contramão e ninguém na gravadora botava fé nos Engenheiros, os caras aproveitaram para fazer o que estavam a fim no segundo disco. Se na abertura havia influência de Dylan, na canção “Infinita Highway”, uma das mais conhecidas da banda, mesmo com quase sete minutos, Gessinger seguiu com a influência existencialista para a letra, mas o som veio calmo e com guitarras limpas, como muitas bandas, ou conjuntos, da Jovem Guarda faziam.

Em um trecho da canção Gessinger diz: “mas não precisamos saber pra onde vamos, nós só precisamos ir, não queremos ter o que não temos, nós só queremos viver... Sem motivos, nem objetivos. Estamos vivos e isto é tudo.”

O ser humano é isso, não podemos deixar a vida nos levar como queria a personagem de Camus, precisamos seguir o caminho, escuro, deserto, sem saber onde iremos chegar. A única certeza que temos é que somos finitos, mas enquanto estamos aqui precisamos seguir, mesmo sem saber para onde ir.

Ainda neste raciocínio, quanto mais nos fazemos, tomamos a consciência de que não temos motivos para estarmos aqui, nada é pré-determinado, nossa essência é engendrada a partir da existência e das escolhas, sem motivos e nem objetivos, fomos lançados ao mundo e estamos sujeitos a tudo, estamos vivos, não sabemos por qual razão, mas temos um caminho a seguir.    

O texto acima traz pequenos trechos de somente duas canções. Ao todo são 11 faixas que percorrem a sonoridade sessentista, o folk de Dylan, as guitarras limpas da Jovem Guarda e toda angústia existencialista. Mesmo que você odeie a banda, como a maioria, é interessante um dia sentar-se e ler as letras.

Para encerrar, ao contrário de mais de 90% das pessoas que estudam Filosofia e buscam o estudo por influência de algum dos grandes pensadores, eu fiz o caminho contrário. A música além de me levar ao jornalismo, ao ouvir “A Revolta dos Dândis” fui levado a conhecer Sartre e Camus. Após contato com as obras desses pensadores, é que fui conhecer a Filosofia. Por isso que às vezes, sempre, me sinto “um estrangeiro passageiro de algum trem.”

Ivan Gomes é produtor e apresentador do programa A Hora do Canibal pela Mutante Rádio e às vezes participa de rodas de Filosofia em escolas por aí.      

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

‘Eu sou apenas um velho latino americano’


Por Ivan Gomes

O saudoso Belchior escreveu uma das músicas mais incríveis do cancioneiro popular brasileiro em seu segundo álbum, denominado “Alucinação”, lançado em 1976. A canção que dá nome ao disco é uma grande pérola, mas podemos falar sobre ela em outra ocasião. Mas o que chama atenção é a canção “Apenas um rapaz latino americano”. Letra, canção e o tema.

Em alguma aula, não me recordo a matéria, mas o assunto era sobre a América Latina, lembro quando um professor disse que apesar de estarmos na América do Sul, o Brasil não se sente parte da América Latina. Um outro comentário disse que sempre demos as costas, afinal, a maior parte da população brasileira vive próxima “à costa leste” do continente.

Mas a música e a cultura sempre existiram como se fossem algo para destruir os muros e nos remeter à importância em se criar pontes. Sim, somos brasileiros, uma mistura de muitas e variadas etnias e sim, somos latino-americanos. Acredito que chegou a hora de não valorizarmos apenas o que o Centro diz ou dita como regra. Está na hora de buscarmos ouvir e conviver mais com nossos Hermanos. Afinal, estamos na periferia do capital, gostem ou não.

E essa convivência tem rendido frutos há algumas décadas e tem aumentado a cada ano. Atualmente, com ajuda das redes sociais, conseguimos ter mais acesso a informação e com isso buscamos sempre ampliar nossos conhecimentos musicais. E em rápidas consultas na rede conseguimos saber mais sobre cada país. E com todo esse acesso, facilitou e despertou ainda mais interesse em saber como está o rock em nossos vizinhos.

Falar sobre o rock argentino é tranquilo, devido a quantidade de bandas de qualidade, em todas as vertentes, que nossos hermanos produzem. Seja no passado ou no que chamamos de underground, os argentinos estão com produção incrível. Me lembro que a primeira vez que ouvi dizer que havia rock na Argentina foi quando os Paralamas do Sucesso trouxeram Charly Garcia. Era apenas um garoto e não entendia nada, não que hoje entenda, mas aquilo chamou atenção. E os Paralamas eram uma banda que com o passar do tempo notei que dialogava muito como nossos vizinhos, com ritmos que fogem do habitual, assim como regravações de algumas canções. Também com o tempo soube que eles são muito queridos, principalmente na Argentina.

Ainda sobre a Argentina, lembro que logo que a Leptospirose voltou de sua primeira “gira” por lá, com passagem pelo Uruguai, conversei com o Quique Brown, vocalista e guitarrista da banda, que disse algo mais ou menos assim: “A Argentina é muito Ramones, punk rock, enquanto o Uruguai é mais ‘Motorhead’”.

Em meu programa de rádio, A Hora do Canibal, que está há quase 12 anos no ar, ao longo desse tempo sempre busquei trazer algumas bandas clássicas e também algumas novidades do que rola em nossos vizinhos. Amigos, colegas e ouvintes também contribuem muito nesta jornada. Foi por meio de meu colega Denis Fontanesi que descobri uma das bandas argentinas que mais ouço, a Nueva Ética. Hardcore de qualidade magnífica e com postura política e ótimos discursos em suas letras.

Na mesma levada trouxe outras bandas como Flema, Los Lótus, The Tormentos, Boom Boom Kid, Fun People, Los Piojos, Soda Stéreo, regravada pelos Paralamas. Da Argentina, em algumas edições do programa rolei muitas bandas que estão presentes em uma coletânea lançada pelo selo Scatter Records, que em 2011 lançou um disco com uma mescla de bandas argentinas, brasileiras, estadunidenses. Lembro de ouvir Autoramas e Macaco Bong nesta coletânea. Os brasileiros sempre muito bem representados e muito queridos pelos hermanos. E para sabemos mais sobre a cena na Argentina, basta acompanhar o Raro Zine, sempre com entrevistas e resenhas.

E sobre o Uruguai, o que dizer do país de Pepe Mujica e do mestre German Martinez? Como disse Quique Brown, o Uruguai é muito “Motorhead”, muito hardcore, muito punk, muito som no talo. Motosierra é uma banda que pode resumir muito bem isso. Uma das bandas mais sensacionais da história do rock está aqui, bem ao nosso lado e tivemos a sorte de poder acompanhá-los em suas apresentações que considero insanas, no mais que bom sentido da palavra. E foi com a Motosierra que fiz uma das entrevistas mais interessantes e doidas para A Hora do Canibal e para meu finado zine/blogue Canibal Vegetariano.

Mas o Uruguai também é Silverados, Gonzo, Los Mokers, Hablan por la Espalda, Chicos Elétricos, Guachass, Austral, entre tantas outras. Gonzo tive o prazer de ver um show dele em Campinas/SP. Uma apresentação visceral e uma aula de rock’n’roll. Da banda Guachass conferi apresentação em Bragança Paulista/SP e foi incrível. Lembro que este show foi no período da tarde e muitos pais que gostam de bons sons levaram seus filhos e, ao final, quase todas as crianças agitavam no palco junto com a banda.

Devido ao espaço não consigo escrever mais, mas há muito o que se dizer e escrever sobre o que tem rolado de bom em nosso continente e como tem rolado, ou rolava antes da pandemia, um intercâmbio muito interessante entre bandas brasileiras e nossos vizinhos.

Há muito para falar sobre a cena argentina, uruguaia, chilena, de onde vem uma das bandas mais sensacionais que vi ao vivo. Foi em um antigo bar do camarada ETC, em Jundiaí/SP. Lembro que quando cheguei para ver a “Against All My Fears”, não enxerguei o vocalista. Mas quando a música começou, o cara mostrou uma raiva e um vocal insano ao extremo que fez estremecer a casa. Se não me engano, os caras alteraram o nome para o espanhol.

Quando se começa a escrever, uma cacetada de imagens e lembranças vem à tona e fica difícil lembrar de tantas situações vividas e nomes. Mas o mais importante é que as bandas estão por aí e que hora ou outra a pandemia irá passar e o que realmente espero é que cada vez mais os organizadores de shows tragam as bandas dos países vizinhos. A cena, se é que podemos chamar assim, está efervescente e há muita banda boa e para todos os gostos.

Chego ao final do texto e nem consegui falar sobre o Peru, Equador, Bolívia, Paraguai, Colômbia e Venezuela. A Venezuela talvez seja algo que um dia ainda venha a escrever sobre as bandas de lá, tenho rolado algumas no programa. Mas chama muita atenção o que tem rolado no país do “roqueiro” Maduro que, no último 13 de Julho, felicitou os ouvintes do estilo com uma foto dos Ratos de Porão.

Iniciei o texto com uma citação ao grande mestre Belchior e fecho com uma alusão aos paulistanos da Flicts, que em 2013, no álbum “Singelos Confrontos”, gravaram a canção “Latino América” que em parte da letra diz: “Nós somos filhos de sangues intensos, cada sangue uma coloração, uma origem, uma direção, todos eles a se encontrar, todos eles a se misturar em nós... somos latino americanos!”

Ivan Gomes, 42, é jornalista, professor, torcedor do Santos e apresentador do programa A Hora do Canibal, pela Mutante Rádio 

domingo, 11 de outubro de 2020

A história que a ‘escola’ não conta


Um dos temas mais discutidos em nosso país atualmente é a questão das escolas e da educação. A pandemia que nos afeta há alguns meses mudou drasticamente a rotina de todos nós. Infelizmente muita gente morreu e uma parte não apenas devido às complicações da doença, mas pela falta de estrutura de nosso sistema de saúde. E saúde tem tudo a ver com educação. E aí você pode se perguntar: por que devo ler isso em uma revista musical? Pois agora vamos entrar no quesito música!

Em algumas conversas recentes com amigos e com minha própria companheira, sempre comento que aprendi mais sobre história e geografia com discos de rock, ou com futebol, do que nos vários anos que passei sentado em alguma cadeira dentro de uma sala de aula. Mas isso não ocorreu por problemas com os professores, mas sim pelo próprio sistema educacional que não permite que nós pensemos sobre os assuntos.

Esse tema é abordado por Mao, vocalista e letrista da banda Garotos Podres, no segundo álbum da banda, lançado em 1988, denominado “Pior que antes”. Em uma das faixas, “Escolas”, Mao traz toda essa revolta e como o sistema não servia para que pensássemos e sim apenas fôssemos massacrados. “Nas escolas, onde a cultura é inútil, nos ensinam apenas a sentar e calar a boca”. Infelizmente, quem trabalha com educação sabe que mesmo 32 anos depois dessa música, o sistema continua o mesmo.

Em outra parte da letra, Mao diz que nas “escolas você aprende que seu destino já está traçado, pois querem os transformar em cordeirinhos domesticados, prontos para serem transformados em operários escravizados.”

Na escola não aprendemos que vivemos em nichos, que existe muito ódio, preconceito entre tantos outros problemas em nossa sociedade. Nas escolas recebemos apenas informações que podem ser úteis para que consigamos alguma colocação no mercado de trabalho, mas não nos ensina a importância de nos sindicalizarmos, o quão é importante contestar ordens obsoletas e não nos submetermos a mandos e desmandos de patrões e chefes. Como diz a canção, nas escolas somos apenas domesticados.

No trecho final da música, Mao deixa a domesticação explícita: “Me mandaram à escola para me dominar, me mandaram à escola para me manipular, me mandaram à escola para me escravizar, me mandaram à escola para me domar”. Fizeram isso com nossos pais, conosco e provavelmente fazem isso com nossos filhos.

E ainda neste álbum, Mao vai lidar com a questão do governo, o fato de não gostar do governo e à época do lançamento do disco à frente da presidência estava José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, o José Sarney. “Eu não gosto do governo, não confio no presidente, eu não acredito na ‘Ordem e Progresso’”. A faixa de abertura é um soco no estômago e isso não nos é ensinado nas escolas. O quanto um governo pode ser nefasto para uma população. Atualmente temos um grande exemplo.

Questionar autoridades é algo que não aprendi nas escolas, aprendi com os discos de rock, punk, principalmente com este disco dos Garotos. Pensei que ao invés de nos obrigarem a cantar o famigerado “hino nacional” antes da entrada para as aulas, deveríamos cantar este hino a plenos pulmões, principalmente o segundo trecho: “mas ninguém pode me censurar, pois não sou obrigado a gostar, confiar e acreditar em nada deste mundo.” A educação deveria ser emancipadora, não essa prisão sem grades, uma prisão ideológica, que nos vende a imagem de falsos heróis.

Nas escolas quase nunca falamos ou debatemos sobre a ditadura militar, ou cívico-militar, pois uma parte da sociedade defendeu essa aberração e ainda no final da segunda década do século XXI há ainda quem acredite que homens de fardas e coturnos têm alguma capacidade para administrar um país. Tem gente que não aprendeu o mínimo que a escola oferece e nem aquilo que os discos e bandas ofertam. Pensar não é algo que faça parte da escola.

Toquei no assunto da ditadura pois, na segunda faixa do disco, Mao canta “não queremos anistia aos torturadores, não queremos que os assassinos fiquem impunes. Amordaçaram e torturaram toda uma nação, nos deixaram órfãos de uma mãe pátria”.

Em 1988, quando os Garotos lançaram o “Pior que Antes”, também foi promulgada a Constituição vigente até os dias atuais. Inclusive, o disco foi lançado pouco depois, caso contrário, o disco não poderia conter a faixa “Batman”, a última canção censurada no país. Foi com a Constituição que o país recuperou a liberdade de expressão.

Volto, neste parágrafo, à questão da música “Anistia?”. Quando chegou ao final da ditadura e houve o período de redemocratização, o Brasil não “acertou as contas” com o passado. Pensamos que uma nova lei resolveria todos os nossos problemas. A desgraça da ditadura não foi condenada, ela apenas foi deixada de lado e atualmente vemos os muitos fantasmas que nos cobram. Não conhecer nossa própria história, não fazer os acertos custa caro e pagamos o preço atualmente. Os Garotos cantaram a bola, poucos ouviram, a maioria fez ouvidos moucos. Enquanto isso, na Argentina, nossos vizinhos, as pessoas que participaram da ditadura pagam um alto preço. Houve condenações para que servisse de exemplo e para mostrar quão nefasta é uma ditadura.

Também foi nesse disco que aprendemos sobre como é ser suburbano, ou da periferia. Em “Subúrbio Operário” Mao fala sobre alguém que nasce em um destes lugares espalhados pelo país. “Nasceu no subúrbio operário de um país subdesenvolvido, apenas parte da massa de uma sociedade falida. Submisso a leis injustas que os fazem calar. Manipulam seu pensamento e o impedem de pensar”. Esse trecho inicial nos remete novamente à escola e também à música “Escolas”. Afinal, ele fala novamente sobre manipulação, sem direito a pensar... algo que nos faz falta para construirmos uma sociedade com menos desigualdade e com oportunidades para que as pessoas consigam desenvolver seus potenciais.

Ainda nesta canção, em sua parte final, uma das melhores lições que os Garotos poderiam nos deixar: “Sem esperança de uma vida melhor, pois os parasitas sugam seu suor. Sobrevivendo das migalhas que caem das mesas, dos donos do papel, dos donos do papel.” Nós vamos à escola sem saber o porquê, somos manipulados, vendemos nossa força de trabalho em troca de migalhas... Mas isso não nos é ensinado. Nos vendem a ilusão de que “seremos alguém”, mas os papéis sempre tiveram donos, isso não nos é mostrado. Somos adestrados a engolir as migalhas, sem reclamar, com sorriso no rosto e gratidão a alguma divindade.

Em uma outra faixa, “Caminhando para o nada”, Mao fala sobre uma pessoa que sai apressada para o trabalho, geralmente em meio a uma multidão desesperada enquanto “os donos do capital manobram a economia, saqueando a sua vida e promovendo a miséria geral.” Esta letra poderia muito bem ter sido escrita no momento atual, afinal, o que vimos durante a quarentena? Pessoas desesperadas. Quantos pseudo burgueses saíram às ruas para pedir “a volta da economia” e reabertura de indústrias e comércios não essenciais? Isso também é o reflexo da falta de uma educação emancipatória. Novamente Mao mostra o quanto a escola nos doma, nos domestica. Aceitamos pós-verdades de um lado e de outro sem nos questionarmos. Ainda há uma parte da população que crê em “salvadores da pátria”. Enquanto muita gente segue “caminhando para o nada”, o pequeno grupo que realmente lucra, com risos e lágrimas, seguiu a observar o crescimento de seus números através das telas de seus celulares.

Ainda sobre história, na penúltima canção do CD, “Não questione”, Mao escreve sobre uma criança que passou toda a infância a fim de fazer perguntas sobre se era obrigada a aceitar tudo que lhe é imposto. “Papai mandava ouvir o padre, que mandava ler o livro, que mandava não questionar, nunca, jamais, o padre e o papai.” É com isso que somos obrigados a lidar, não podemos questionar. A escola reprimiu e ainda reprime quando o questionamento tem base. Mas não aprendemos a questionar na escola.

Além de história, com o Garotos também podemos aprender um pouco de Sociologia. A última música do disco “Garoto Podre” traz a história que até hoje acompanhamos os relatos aos montes. O início da música nos traz a referência de que quem vive do outro lado do muro nunca saberá o que ocorre no subúrbio.

A educação que não nos liberta, ao contrário, nos aprisiona, não nos diz que quando conseguirmos um emprego não teremos dignidade. Não aprendemos que quando estamos desempregados, seremos taxados de vagabundos e se formos à greve seremos chamados de subversivos. Mas os Garotos nos ensinaram e ainda ensinam. “Mas se arrumar emprego não lhes dão a dignidade, apesar do sujo macacão e do rosto suado.”

Algumas das canções relatadas neste texto nos ensinam que precisamos questionar sempre, mas com base e conhecimento. Conhecimento não conseguiremos nas escolas, mas precisamos frequentá-las para termos o direito de nos insurgir e tecer as críticas necessárias a esse sistema que até hoje nos manipula e não passa de um verdadeiro faz de conta. Aprendemos que o mundo tem alguns donos, que somos obrigados a viver de migalhas e que não gostar do governo, qualquer governo, é essencial.

domingo, 16 de agosto de 2020

Não importa o formato, o que importa é a música!


Por Ivan Gomes

Música, rock, punk, hardcore, metal, pop, brega... Não importa o formato, o que vale mesmo é a qualidade da música e como ela afeta o ouvinte. Música desperta paixões, sejam elas boas ou ruins, se é que é possível existir alguma paixão que seja possível ser considerada boa, positiva etc.

Sou um cara nascido no final da década de 1970 e ouço música desde que me conheço por gente. Em casa, minha mãe sempre teve seu “radinho de pia”, sim, pia, o rádio ficava sobre a pia àquela época e por meio dele era possível ouvir programas de locutores famosos e que rolavam todo tipo de estilo musical, principalmente o pop rock brasileiro que surgia no início dos anos 1980.

Com música em casa por mais de 15 horas por dia, de domingo a domingo, foi muito fácil entender que o som que propagava daquela pequena caixa, entre o plástico e a madeira, era algo essencial para vida. E além do rádio, minha mãe tinha um toca-discos e uma pequena coleção de vinis. Havia os grandes e os pequenos, chamados de disquinhos, que mais tarde fui descobrir que eram os singles.

Ao ouvir os discos e depois ao ouvir a mesma música no rádio, descobri que era possível pagar para ter as canções em casa e ouvi-las quando bem entendesse. E foi devido ao rádio que houve o despertar de um ouvinte e com o passar dos anos do colecionador de discos e apreciador de muitas bandas.

E foi devido aos sons que me identificava por meio do rádio e depois ao ver os caras na TV, em programas pitorescos de auditório, que comecei a ser presenteado com discos. Depois disso, devido a grande crise financeira, (quando o Brasil não teve uma?) fui presenteado com um rádio toca-fita e com duas fitas “virgens”. Como comprar disco havia ficado caro, fui presenteado com essas pérolas que mudaram definitivamente o modo de vida.

Sem grana para os discos, o jeito foi gravar as músicas preferidas nas pequenas fitas. E com o passar do tempo, notei que na escola mais algumas pessoas faziam o mesmo esquema, principalmente a galera que começava a se interessar pelo rock, fosse ele brasileiro ou não.

Com o passar do tempo, a situação ficou menos ruim e foi possível novamente ganhar discos de presente. E as fitas ajudavam, afinal, ouvíamos muita música e aquelas que realmente “batiam” eram selecionadas. E além de escolher de uma maneira melhor o que queríamos ganhar, gravar fitas nos fazia ser parte de um seleto grupo, isso era algo importante, principalmente na transição da infância para adolescência.

E o que todo esse “monte” de palavras tem a ver com o “streaming” e a música que podemos ter em casa no formato físico? Acredito que tudo, afinal, a dificuldade financeira nos fez ouvir muita música grátis para na hora da compra, efetuar aquela que realmente fazia você se situar fora do lugar. É o que hoje noto nos serviços vendidos pela internet. Música de todos os estilos, ventiladas para todos os lados, mas compramos realmente aquelas que realmente nos dão a sensação de desconforto.

Assim como ouvíamos diversos programas de rádio, em AM e FM, e assistíamos a programas musicais na TV, hoje temos um leque ainda maior de informação, com diversas plataformas somente para música, temos vídeos, temos redes sociais nas quais os artistas estão lá, disponíveis 24 horas por dia, todos os dias da semana.

E como anda o consumo de música nos dias atuais? Não faço a mínima ideia! Quando fui convidado para escrever esse texto para primeira edição da revista Raro Zine, German me deixou livre, então parti da premissa das minhas experiências e do que acompanho dos amigos próximos e alguns colegas.

O que noto, é que ainda existe um saudosismo com o passado, não apenas da maneira do formato como a música chega até nós, mas como eram as bandas e tudo o mais que as cercavam. Há ainda os colecionadores de vinis, de CDs e agora surgiu a coleção de K7, as fitinhas.

Atualmente não uso mais fitas para gravar as canções que chamam minha atenção, pois tudo está “mastigado”. Acesse site tal, ou aplicativo, e por lá você encontra isso, aquilo, rádios webs, as plataformas de streaming, os vídeos. Nunca foi tão fácil ouvir música e acredito que nunca houve tanta produção de música, em todos os estilos.

A tecnologia nesse quesito foi uma benção. Com um clique, você ouve bandas de todos os estilos e de qualquer parte do mundo. Na infância não era assim que funcionava, você era afetado por determinado estilo, ou canção, que alguém havia selecionado. Hoje não mais, não há limites, nem fronteiras, você é seu próprio produtor.

Além disso, atualmente a situação econômica é capenga, mas, mesmo assim, pode ser considerada melhor do que era no final dos anos 1980, início dos anos 1990. Naquele período, os aparelhos eram limitados, para ouvir música portátil era preciso ter um walkman e havia o limite de tempo da fita. Atualmente você carrega discografias, centenas delas, em seu próprio aparelho de telefone móvel.

Todavia, penso que pouca coisa realmente mudou desde então. Exceto as mudanças econômicas e o avanço tecnológico, a música ainda emociona, isso é o mais importante. Se vamos ouvi-la em vinil, K7, streaming, no som mais potente do momento ou no fone do celular, isso chega a ser irrelevante, o que importa é que as canções estão soltas no mundo.

Algo que também precisa ser dito é que quando gostamos de determinada banda, isso nos faz querer consumir seu som, pois além de ouvirmos queremos cooperar com as pessoas que se dedicam a este importante ofício, afinal, só quem tem banda sabe o quanto é caro aprender a tocar, comprar e fazer manutenção de seus instrumentos, gravar, ensaiar etc.

O lado positivo do streaming é esse... oferecer o que há de música por aí, para você dar aquela peneirada e adquirir material daquelas bandas que realmente tem algo a nos dizer, que vai além dos acordes... Com esta nova modalidade, você pode comprar sua canção e ficar ali, em qualquer ponto do mundo em uma viagem constante sem sair do local onde está.

Atualmente não tenho mais walkman, discman, um avanço brutal da tecnologia nos anos 1990... Mas tenho um celular e nele carrego muita coisa para ouvir, seja na caminhada, a caminho do trabalho, antes de dormir. A tecnologia me proporciona entrar em contato com uma gama absurda de sons. Se todos fossem em formato físico, teria que dormir na varanda.

Por isso, para mim, o streaming e os downloads são fitas com seu tempo estendido. Ouço, peneiro bem e compro os CDs das bandas que realmente me dizem algo. E com o passar do tempo, é normal ter alguns discos que não te dizem mais nada, ainda bem que até hoje há pessoas que compram ou trocam por algo que realmente quero ter.

Portanto, como escrevi no início do texto, para mim pouco importa a maneira como a música chega até onde estou, pois o importante é como sou afetado por ela. Muito mais interessante que os formatos, o que vale mesmo são as canções. Às vezes bate um saudosismo, aí procuro ouvir algo na radinho, mas longe da pia, afinal, o avançar da tecnologia e do tempo, fez tudo ficar compacto. Não deixe sua vida ficar compacta, expanda-a! Ouça música!

Ivan Gomes, 42 anos, é jornalista, professor, torcedor do Santos, produtor e apresentador do programa A Hora do Canibal, que vai ao ar toda virada de segunda para terça-feira, à meia-noite, pela Mutante Rádio.     

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Um cardápio para deixar saudade

Julia durante apresentação dos Replicantes. 
Fotos: German Martinez/Raro Zine
Foi encerrada no domingo (17), no Cile Lavapés, em Bragança Paulista, a 14ª edição do festival Cardápio Underground. E o último dia foi daqueles que irá demorar para sair da memória de quem esteve presente. Infelizmente não conseguimos chegar para o início da maratona rock’n’roll do domingo, mas acompanhamos várias apresentações.

O deslocamento entre Itatiba e Bragança Paulista é rápido, mas tudo depende das condições da estrada, que não é duplicada, e da quantidade de caminhões, que faz com que a velocidade seja menor. Demoramos, mas chegamos, e assim que adentramos o recinto, a banda Aqueles, do Zazá, do Café in Sônia, subia ao palco.

Como o festival teria mais de dez atrações, dois palcos foram montados. Acabava uma apresentação, iniciava outra, parabéns aos organizadores.  E a apresentação do Aqueles foi no melhor estilo hardcore, direito e rápido como estamos acostumados. Como nota, avisamos que não foi possível acompanhar as bandas: Tumbero, Sorry For All, All Fight For All, The Damned Human Flesh, BlankWar.

Motor City Madness
Após a destruição do trio campineiro, foi a vez dos gaúchos do Motor City Madness que encerravam a turnê paulista de mais de dez dias e muitos shows entre a capital e o interior. A Motor é uma banda que gostamos em demasia e esse foi o show mais brutal que acompanhei. Riffs, velocidade, fúria, tudo aquilo que estamos acostumados foi apresentado pelo quarteto dos pampas e músicas de seus três discos.

Nem terminou direito a porradaria da Motor, no palco em frente, estava a I am The Sun, trio sensacional que apresentou seu stoner cheio de peso e riffs geniais. Fizeram um puta show e saíram do palco com o público conquistado.

E a porradaria prosseguiu, pois na sequência vieram os fluminenses do Deaf Kids. Fica complicado rotular o tipo de som que eles fazem, mas é incrível a capacidade sonora e efeitos que eles usam e tudo soa muito bem ao vivo, sem citar a presença de palco, show daqueles que, se o evento fosse pago, teria valido o ingresso.

Muzzarelas
Após essa sequência animalesca, demos aquele tempo para comer, vale frisar que os espetinhos servidos no local estavam deliciosos. Comida, bebida, aquele rolê pelas bancas de discos e camisetas e o papo com os colegas de outras cidades. Em meio a tudo isso, conseguimos apenas ouvir a rápida apresentação da Patife Band, banda que havíamos visto há poucos meses em Campinas.

E por falar em Campinas, a Patife terminou seu show e os campineiros da Muzzarelas mandaram ver seu som, mais do que clássico. Muzzarelas no palco é sempre garantia de boa música e diversão. E foi o que eles promoveram para o sedento público de rock e ainda mandaram ver um som inédito.

Após o show do Muzza seria a vez da galera do metal, a banda Nervosa faria sua apresentação. Como o metal não é muito nossa praia, voltamos ao carrinho de lanche, mais comida, mais bebida e mais papo, afinal, ainda haveria show dos Replicantes.

Deaf Kids
E os gaúchos encerraram a festa com chave de ouro. Ainda não havia visto a banda ao vivo com a vocalista Julia Barth e a apresentação foi simplesmente sensacional. A banda botou na mesa todos seus clássicos, de maneira simples e direta, sem frescuras... fizeram apresentação de banda do porte de “time grande”. Vale destacar que Julia tem ótima performance de palco, canta todas as canções sem perder o fôlego e ainda desceu duas vezes para agitar com o público na roda de pogo. Um show daqueles que fizeram valer o ano.

Após o fechamento das cortinas, restou-nos levantar acampamento e partimos de volta para nossa cidade, com a certeza de que o festival cumpriu seu papel e aproveitamos para parabenizar a todos pela organização, nota 10.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Duas doses de rock para deixar 2016 para trás

Drákula, como sempre, em mais uma exibição de gala em
terras bragantinas. Fotos: Ivan Gomes
No domingo (18), a galera do Canibal Vegetariano botou o pé na estrada em direção a Bragança Paulista, mais precisamente ao Centro Cultural no Matadouro, onde o responsável pelo Raro Zine, German Martinez, organizava a última edição do Raro Zine Fest, em 2016. Quatro bandas estavam programadas, mas devido a outros dois compromissos anteriores, conseguimos chegar a tempo de ver as duas últimas, Burt Reynolds, de Jundiaí, e os campineiros do Drákula. Infelizmente a Echinochess (Monte Mor) e Sorry For All (Socorro) ficarão para uma próxima.

Apesar de não vermos as duas primeiras bandas, chegamos pouco antes do início da apresentação dos jundiaienses. No início deste mês vimos a banda “jogando” em casa mas mesmo fora, os caras arrebentam e conquistam rapidamente o público. Sem delongas, a banda solta os riffs e põe a “juventude” para dançar e agitar com seu rock entre o moderno e o retrô. Eles deram uma passada em quase três décadas de rock e ainda apresentaram som novo. Mesmo fora de casa, mais uma bela “vitória” da galera do Japi, com direito a goleada.

A Burt Reynolds romou de assalto o palco do Centro
Cultural e fez a galera agitar
E para fechar o ano do Raro Zine, a banda Drákula sobe ao palco com a galera mais do que aquecida e sem dó nem piedade despejou punk rock, surf music e rock’n’roll para que os esqueletos fossem chacoalhados à vontade. Com novo integrante na guitarra, Beto, da Labataria, o quarteto manteve o estilo e rapidamente conquistou o público e fez mais um ótimo show, que faz com que a banda esteja os shows mais interessantes para assistir nos últimos tempos.

Ao final das apresentações, público satisfeito e o gostinho de “quero mais” em 2017. German Martinez acertou na escolha das bandas para fechar o ano e agradeceu a todos que compareceram aos eventos do Raro Zine ao longo de 2016. “Nosso sincero obrigado a todos que contribuíram de alguma forma no decorrer do ano, e que fizeram do Raro Zine Fest uma verdadeira celebração de festa, harmonia, amizade e cooperação. Um obrigado gigantesco a todos.” 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O som garageiro que vem de Portugal. Conheça The Dirty Coal Train

Os portugueses da Dirty Coal Train estiveram em turnê pelo Brasil.
Foto: Divulgação
Em meio a uma turnê nacional, os portugueses do The Dirty Coal Train, bateram um papo muito massa com o pessoal do RaroZine que nós publicamos agora no Canibal Vegetariano.

Quando surgiu o grupo?
Os The Dirty Coal Train surgiram em meados de 2010 com formações variáveis e nos estabilizamos no formato trio com baterista convidado.

Quando começaram as primeiras canções?
A primeira demo foi gravada ainda em 2010 apenas com esqueletos de canções que oscilavam entre o pós-punk experimental e o garage-punk, acabando a estética da banda por se aproximar desse segundo gênero.

Recentemente vocês lançaram ‘Super Scum”. Como foi trabalhar nesse disco?
O álbum resultou do trabalho de algumas demos minhas [Ricardo] juntamente com alguns temas novos da Beatriz. Alguns dos temas foram trabalhados com o Carlos [dos Twist Connection e ex-Tedio Boys] outros a instrumentação foi toda gravada por mim e pela Bea.

Existe alguma diferença do novo álbum para os anteriores?
Muita. Para além de voltar a marcar o regresso ao estúdio depois de alguns registos mais lo-fi marca os primeiros em estúdio gravados completamente pelo duo.

Como surgiu a gravação no Estúdio Caffeine?

Conhecíamos o Luís pelos Human Trash e quando o Marky Wildstone sugeriu gravarmos no Caffeine foi com entusiasmo que aceitamos por acreditarmos que haveria sensibilidade e pontos comuns nos gostos de todos.

Quem cria as capas dos discos?
Até ao momento tivemos capas da autoria da Beatriz, do Ricardo Reis, do Edgar Raposo e da Catarina Romão. Por vezes trabalhamos a ideia base com o artista por vezes deixamos o critério em aberto, não há formula rígida nisso.

Todos os materiais da banda foram editados em vinil?
Sim. Tirando a primeiro demo, o resto saiu tudo em vinil.

Falem sobre os vídeos da banda.
Fazemos vídeos do mesmo modo que fazemos música: muito amor à estética lo-fi e ao DIY e com os meios que tivermos à mão espreitem por exemplo os vídeos para os temas Malasuerte, Violet black, Ramblin heart, 4 Psalms e Stay hungry. Recentemente tivemos ajuda da Francisca Marvão que filmou um concerto para o vídeo do tema Man in the black leather e da Riviera Videos para o Banzai Karaoke Attack.

Quais os selos que lançam o material da banda?
Até agora para além de edições de autor fomos editados pela Garagem Records, a Groovie Records e a Wildstone. Todas editoras que vale a pena investigar.

Qual é a relação de vocês com a música brasileira?
Relação de consumidores. Desde Ratos de Porão, Cólera, Mutantes, Tom Zé,… eu sei lá… sempre ouvimos bastante música brasileira.

O que motivou vocês a voltarem ao país para outra turnê? E o que vocês esperam desta nova passagem por aqui?
Foi criada uma parceria com a Wildstone e a proposta avançou por aí. Hoje é mais uma amizade que uma parceria. Esperamos nesta nova tour, acima de tudo, rever amizades e fazer algumas novas.

O que vocês planejam para o futuro?
Depois de acabar esta tour no Brasil temos agenda com datas em Espanha, Portugal e UK até final do ano. Depois disso vamos esperar para ver, mas ainda temos mais uns álbuns na gaveta e energia para umas tantas tours mais! Não nos imaginamos sem fazer isso sem dar em malucos!

Fonte: RaroZine

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Drákula e Motor City Madness: duas aulas de rock’n’roll

Os gaúchos iniciaram os trabalhos em Bom Jesus.
Fotos: Canibal Vegetariano
Durante a noite de sexta-feira (6), a equipe do Canibal Vegetariano deslocou-se até Bom Jesus dos Perdões para acompanhar o Raro Zine Fest, que nesta edição apresentaria as bandas: Drákula (Campinas) e Motor City Madness (Porto Alegre), muito conhecidas das pessoas que acompanham os ‘textículos’ que expomos no blog.

A noite de outono brasileiro estava agradável para ver novamente duas das melhores bandas do underground nacional em ação. A primeira a se apresentar no espaço aberto pela lanchonete Zebra Lanches, foi a Motor City Madness.

O quarteto gaúcho fez aquilo que esperávamos: em pouco menos de uma hora apresentaram várias canções de seus dois discos e algumas novidades que em breve serão lançadas em vinil 7 polegadas. Com riffs cortantes e bateria sendo socada impiedosamente, no mais que bom sentido da palavra, os gaúchos deram uma aula de como fazer aquele rock garageiro com tudo que o rock’n’roll pode oferecer. Foi uma apresentação que não deixou pedra sobre pedra.

Durante apresentação da Drákula, teve até levitação
Nem tivemos tempo de nos recuperar da Motor, os campineiros da Drákula iniciaram a segunda aula da noite. A mistura punk rock, garage e surf music do quarteto ficou ainda mais insana com a entrada do baterista Serginho, que também toca na Leptospirose. Os caras passaram pelo repertório de seus dois discos e dois EPs, além de uma versão genial para “Pantanal”, da banda bragantina onde toca Serginho, que em breve será lançada em tributo ao power trio da terra da linguiça.

Depois de duas aulas de como fazer esse tal de rock’n’roll, que para nós é mais do que um estilo musical e sim um estilo de vida, só nos restou passar nas banquinhas das bandas, dar aquela garimpada e voltar para casa com sorriso de orelha a orelha, afinal, não é todo dia que temos o privilégio de acompanhar bandas deste tipo e rever os amigos da estrada. 

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Rarozine lança coletânea ‘Banidos’

German Martinez, editor do Raro Zine e
responsável pelas coletâneas. Foto:
Acervo Pessoal
Inspirado em uma canção da banda estadunidense Bad Brains, o zine/selo Raro Zine lançou na última semana a coletânea dupla “Banidos”. “A compilação tem como ideal trazer à tona bandas que passaram pelo Raro Zine Fest no decorrer deste ano, quando conseguimos nos aventurar pela organização de eventos, mesmo que seja de pequeno porte e isso nos trouxe muita satisfação”, revelou o editor do zine e responsável pelo projeto, German Martinez.

Martinez comentou que no início sua ideia era lançar a segunda edição do “Bragança Resiste”, mas devido à falta de material para preencher todo o disco, lembrou-se dos festivais que organizou. “Por este motivo se consolidou a ideia de registrar esse momento que passamos com bandas que possuímos apreço. Durante oito eventos pudemos compartilhar de ideias e momentos”, comentou.

Com participação de mais de 25 bandas através dos fests onde bandas de várias localidades se apresentaram como Jundiaí, Taubaté, São José dos Campos, Portugal, Rio de Janeiro, São Paulo, além de bandas gringas e das cidades onde foram realizados os festivais.  

As faixas que compõem o disco partem desde viagens psicodélicas até o grindcore político, com passagem pelo sludge, ou mesmo hardcore melódico, até chegar em garage rock. “As bandas são das mais distintas pois o objetivo principal do Rarozine é mesclar influências em seus shows e ocasionar uma união talvez inesperada”, apontou Martinez.

A coletânea é constituída em 2 volumes com 25 canções de todas as bandas que se apresentaram nos dois locais que cederam espaço para realização dos eventos (Casa Auá e Casa das Mangueiras). “As coletâneas são completamente gratuitas para download em nosso bandcamp. Ano que vem terá edição física [dupla] em CDR com três faixas bônus”, explicou.

A arte disco ficou por sob responsabilidade de Fernando Bueno (Bacantes), em uma tradução gráfica que dispôs de alienígenas na capa. “Tudo que fizemos para esta coletânea, entre eles o nome escolhido retrata a forma de expressão de todas as bandas e do próprio zine, remar contra a maré, contra aquilo que é estereotipado sobre nós, nós manifestando como ‘contracultura’, em eventos articulados por nós mesmos, sem apoio financeiros ou culturais. Acreditamos que desta forma podemos transmitir nossos verdadeiros objetivos com união de música e arte”, afirmou o editor.

LEPTOSPIROSE

E além do lançamento da “Banidos” em cd duplo ano que vem, Martinez falou também sobre o projeto que iniciou os trabalhos há pouco tempo. Segundo o editor do Raro Zine, a ideia é lançar tributo aos bragantinos da Leptospirose, banda que comemorará 15 anos de estrada em 2016. “Serão 15 bandas que gravarão versões das músicas do Leptos. Entre as bandas participantes estarão: Drákula, Muzzarelas, Os Estudantes, Renegades of Punk, Sujeito a Lixo, Camarones Orquestra Guitarrística, entre outras. É um projeto a longo prazo mas espero que seja lançado em breve”.

Para encerrar, Martinez lembrou que o zine virou selo virtual e para o próximo ano, além do tributo ao Leptospirose, trabalhará em outros lançamentos. “Vamos lançar novas bandas, entre elas Framboesas Radioativas, La Burca e Duo”, encerrou.

domingo, 11 de outubro de 2015

Raro Zine lança compilação ‘Casa 30’

German Martinez solta voz em show da banda Molho Negro,
em Bragança Paulista. Foto: Canibal Vegetariano
O Raro Zine é um site, ou portal, sobre rock independente. À frente deste importante projeto está o nosso camarada German Martinez. Depois de lançar a coletânea “Bragança Resiste”, agora o editor do site resolveu relembrar o som de ótimas bandas que se apresentaram na Casa 30, local onde rolaram shows históricos da cena underground do interior Paulista. Para saber mais, conversamos com Matinez, para que ele explique este novo projeto.

Canibal Vegetariano: Que parada é essa da coletânea?
German Martinez: Casa 30 foi um projeto cultural que se denominou ‘Casa 30’ por se localizar à Rua José Domingues, 30 – Centro de Bragança Paulista. Era um grupo que se reuniu para mostrar o lado artístico que a cidade tinha abraçando música e artes.

CV: Todas as bandas tocaram na Casa 30?
GM: Em dois anos de atividades foram recebidos inúmeros artistas de todos os cantos do mundo como Austrália, Canadá, Estados Unidos, Argentina, além de bandas dos estados como Rio Grande do Norte, Paraíba, São Paulo, Rio de Janeiro, entre outros... Todas as bandas da coletânea fizeram shows memoráveis. A compilação inclui 26 bandas que tocaram nesse período.

CV: Algumas bandas clássicas, como Leptospirose, ficaram de fora. Haverá segundo volume?
GM: O Leptospirose entrou na coletânea local ‘Bragança Resiste’, que terá o segundo volume. Neste lançamento, a proposta era dar preferência às bandas de fora e no caso o Leptospirose ficou para a primeira coletânea.

CV: A divulgação deste trabalho será somente em download ou haverá prensagem de CD ou vinil?
GM: Haverá uma tiragem pequena em CD que será comercializada em shows do Rarozine por um preço colaborativo para a edição da próxima compilação.

CV: Qual o preço e qual será a próxima compilação? Você pode nos adiantar?
GM: Claro, o preço do CD será R$ 5 e a verba arrecada será para compilação do segundo volume do “Bragança Resiste”.

CV: Valeu mestre, deixo espaço para considerações finais.
GM: Agradeço a divulgação cedida pelo Canibal Vegetariano que sempre nos apoia. E esperamos a presença no show de sábado 17/10 do CHCL e em novembro com o Besta, de Portugal.

Impressões sobre compilação ‘Casa 30’

Dizer que o rock está vivo, e muito vivo, nos dias atuais é como “chover no molhado”. Só reclama quem está totalmente por fora do que rola ou acompanha as notícias apenas nas consideradas “grandes mídias” que mais ditam o que você deve fazer do que te apresentam opções.

Por isso que este lançamento do Raro Zine é algo que merece destaque, afinal, ali estão compiladas 26 canções de bandas que se apresentaram em Bragança Paulista no período de 2 anos. Como disse na entrevista acima, German Martinez selecionou apenas de fora do município e algumas bandas gringas.

As bandas apresentadas nesta compilação são de todos os estilos de rock, do metal até o rock de garagem mais descompromissado. O trabalho feito pelo editor do Raro Zine ficou de muito bom gosto e serve como ótima oportunidade para quem está desatualizado em relação ao que rola neste estilo musical que transbordou o cenário e tornou-se filosofia de vida de muitas pessoas. Nota 10.

Se ficou em saber quais são as bandas que estão neste CD, não falamos intencionalmente, pois você terá que fazer download para descobrir. http://rarozinerecords1.bandcamp.com/album/tributo-casa-30 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Noite dos metais

Fotos: German Martinez
Por German Martinez 

A pedido dos amigos do zine/blog Canibal Vegetariano, fui cobrir o Festival de Inverno em Bragança Paulista, no sábado (18). A ocasião era vertente metal, celebrando quatro bandas representativas no círculo. Em pouco tempo, o local (Ciles do Lavapés), foi tomado pelo público headbanger. O Ciles para quem não conhece abriga praticamente todos os eventos relacionados ao rock na gestão de Luis Henrique Duarte, o Quique Brown, e desta vez não seria diferente para que a plateia comparecesse.

Na abertura vieram os "velhos" conhecidos da nova geração da cidade, o Kollision, após dividir palco com muitas bandas da região e também gringas, foram convocados para esta ocasião. O intuito era tocar canções do seu álbum recém lançado "The stage of death", as composições influenciadas por videogames e etc, mostram um pouco da identidade da banda.

A segunda banda foi o quinteto do Sardonic Impious, o black metal prevalecia nesse momento no Ciles, acompanhados de vários fãs e amigos, o Sardonic entoou satanismo aos presentes. Com uma banda afiadíssima, agradou a todos que admiram o som pesado.

O quarteto carioca do Confronto trouxe a Bragança sua viagem pelo metalcore, hardcore, ou mesmo death metal. Eles são uma banda que faz disso um caldeirão de influências, entre riffs e bateria agressiva, o vocalista Felipe Ribeiro girava o palco atrás de agitar o público que até então, estava atônito, mas depois da metade do show, causou mais empolgação. Chamaram Bragança para o “circle pit” e entusiasmaram os espectadores.

KRISIUN

A chave de ouro era entregue ao Krisiun, o que dizer do Krisiun, nada, seria medíocre da nossa parte declarar algo sobre a insanidade provocada por uma banda que está no mais alto escalão do Death Mundial.

O setlist privilegiou muitas fases do trio gaúcho, o som estava alinhado e ora ensurdecedor para o tremendo peso que eles provocam ao vivo. Escolheram duas músicas do novo álbum para tocar. Talvez "Conquerors of armagedom" tenha feito falta, mas houve death metal para todos os gostos, fazendo qualquer um ficar de queixo caído com a banda. Enfim encerraram com Motorhead "No Class'. Simplesmente uma aula! 

German Martinez é roqueiro e editor do Raro Zine

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Os Vulcânicos: erupções roqueiras em acordes de guitarra

Arquivo Pessoal

Nos dias atuais, quando o tempo parece escorrer pelas mãos, sorte termos pessoas que nos ajudam. O parceiro German, do Raro Zine, no final de agosto fez uma entrevista genial com a banda Os Vulcânicos, do Rio de Janeiro, onde passou a limpo a história dos caras. Como somos fãs do grupo, pedimos licença e com devida autorização do zineiro, apresentamos a vocês, o papo que ele levou com Dony, guitarrista da banda.

Raro Zine: Quando formaram a banda?
Dony Escobar: Formamos a banda em 2009 como um projeto para tocar em bares e tirar algum trocado. No repertório basicamente Stooges, Mc5, Kinks, Who. Tocávamos alto demais e tínhamos contantes problemas com os donos dos bares e com a polícia (risos). No meio de toda essa confusão resolvemos experimentar no meio do set algumas músicas autorais. A coisa funcionou e de lá para cá começamos a gravar nossos “eps” com músicas autorais.

RZ: Como escolheram o nome da banda?
DE: Tínhamos um nome provisório “meia boca” que era inspirado em uma música do Stray Cats, “The Runnaway boys”, mas não pegou. Depois surgiu o nome atual, que tem haver com a intensidade e a energia dos shows. De alguma maneira exprimia melhor o sentimento da banda e do público.

RZ: Como surgiu a ideia de gravar Nelson Cavaquinho?
DE: Nos anos 60 era comum que bandas surf-rock gravassem versões instrumentais de clássicos da música popular de outros estilo musicais que não o rock. No Brasil, o “The Pops” era uma banda que fazia isso muito bem. Mas a ideia em si surgiu de nosso guitarrista em um dos ensaios e nós todos gostamos muito. É um clássico da música brasileira que quebra fronteiras musicais e é fenomenal poder tocar essa figura que tem uma visceralidade em suas composições, músicas que vão direto na veia, sem frescuras e meias palavras. Nesse sentido, Nelson Cavaquinho é um dos caras mais rock'n'roll que existem na música brasileira.



RZ: Como foi a produção do primeiro EP?
DE: Foi uma produção rápida, gravada “na tora”, em um único dia, praticamente ao vivo. Gravamos no “Estúdio 82” em 2012. Foi um momento importante para começarmos a lapidar o trabalho, ouvir, se escutar, ver a repercussão do público do material gravado. Para nós que sempre fomos uma banda “das ruas”, que tocava somente ao vivo, era uma nova etapa se configurando. Temos muito carinho por esse álbum, o nosso “álbum amarelo”.



RZ: O segundo EP soa um pouco mais pesado e rebelde. Qual a diferença entre os dois?
DE: Creio que o “El Truco” é um álbum mais maduro e que já tem um conceito musical e estético mais bem fechado. Já tínhamos mais bem lapidado um caminho a seguir, uma cara mais bem desenhada, um estilo Vulcânicos de tocar e compor, uma linha geral para as músicas e letras. O primeiro ainda era aposta, uma experiência, uma possibilidade. Acho que ambos têm em comum a influência do surf rock dos [anos] 60, mas o segundo está com uma pegada cada vez mais “garageira”, mais sujo, mais pesado e com as guitarras mais “nervosas”.


RZ: Os dois álbuns foram gravados no estúdio Superfuzz. Qual a intenção para o próximo trabalho?
DE: Na verdade o primeiro foi gravado no “Estúdio 82”, na Lapa, um estúdio de uma rapaziada muito bacana onde circulava uma nova geração do rock'n'roll carioca muito promissora, como Beach Combers, Enio Berlota e a Noia, entre outros. O segundo Ep , “El Truco” foi gravado no Superfuzz, estúdio especializado em gravação, onde muita gente “do rock” tem gravado lá: Autoramas, Bnegão, etc. Temos dois projetos em mente, um seria o lançamento em breve de um “single virtual” com uma canção nova, muito provavelmente no mesmo espaço onde era o estúdio 82, atual “coletivo machina”. Um pouco mais para frente pretendemos lançar nosso primeiro material mais longo, saindo do formato EP, algo com cerca de dez ou mais canções.

RZ: Como é o circuito carioca que vocês tocam?
DE: Tocamos nos mais variados lugares e eventos. Já tocamos desde inferninhos ultra underground até palco de grandes festivais como o Aldeia Rock Festival e o Mola, no Circo Voador. Desde abertura do show do Ira!, até festa de final de ano de empresa de hidrometeorologia [risos]. Durante dois anos produzimos em um bar na Lapa os nosso próprios eventos semanalmente. Chamávamos outras bandas, Djs, fazíamos projeções de vídeos, chamávamos artistas plásticos, etc. No Rio, diferente de São Paulo, em que o público geralmente é mais voltado para um único segmento, aqui a coisa é mais variada. Não existe um público grande aqui que seja especifico do “garage” e do surf-rock. Se você fosse em um show nosso no Tico e Taco [o bar que nós tocávamos], ia ver todo tipo de gente: rockabillies, punks, poetas de rua, universitário “cult-bacaninha”, galera de banda “famosinha”, militantes de esquerda, metaleiro e até atriz da Globo [risos].


RZ: Quem foram os responsáveis das capas do disco?
DE: O primeiro quem fez foi o Victor Stephan, vocalista da banda “Os Estudantes”, o segundo foi feito pelo Marcelo Angú, que toca no “Homem elefante”.

RZ: Quais as influências para composição da banda?
DE: Rock de garagem em geral, com uma pitada de surf rock e com uma intensidade de tocar próxima do punk. Tudo que gostamos nos influencia um pouco: Cramps, Los Saicos, Mc5, Stooges, Troggs, etc...

RZ: O que vem pela frente?
DE: Além do “single virtual” e do álbum “longo””, a ideia é viajar para fora do Rio de Janeiro divulgando nosso trabalho. Temos shows marcados em setembro em São Paulo e Campinas. Enfim, meter o pé na estrada e tocar rock alto.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Raro Zine apresenta: 'Bragança Resiste'

Arquivo Pessoal
German, uruguauio, mora em Atibaia, fã de rock e está sempre nos principais eventos underground de sua cidade e Bragança Paulista. Ele também é responsável pelo Raro Zine, que diariamente traz novidades sobre a cena independente, com indicação de shows e principalmente entrevistas com bandas de todos os pontos do Brasil. Há alguns dias, ele lançou a coletânea "Bragança Resiste", apenas com bandas que compõem material próprio e são da "terra da linguiça". Para saber mais sobre este lançamento, nós do Canibal Vegetariano trocamos uma ideia com esse camarada de batalha.

Canibal Vegetariano: Como rolou a ideia de fazer uma coletânea com bandas bragantinas?
German: Bom ,a ideia nasceu de não ficar limitado a uma página e sim também poder mostrar a um público maior, o que é feito em Bragança. Isso tomou forma para que pudesse divulgar de modo mais amplo as bandas e que isso alcançasse público de outras localidades que tenham interesse nessas bandas. Hoje com o poder da tecnologia podemos distribuir desse modo,a coletânea "Bragança resiste" remete aos 80, com influências daquelas compilações como o Sub, Ataque Sonoro, Grito Suburbano, tomada as devidas proporções e épocas, no consenso final um registro sonoro de quase uma década de história.

CV: Como foi a escolha de quem entraria nesse disco?
G: A escolha surgiu da admiração e amizade com grande parte das bandas e a presença em shows e carreira de algumas delas, me fez estar mais presente na trajetória delas... Então naturalmente os contatos e convites foram surgindo. Paralelamente as matérias e entrevistas no Rarozine foi baseado em bandas que possuíam material pronto e sem a preocupação de estilos ou algo do tipo, Bragança sempre foi bem alternativa, sendo cada banda com sua identidade sonora sem soar repetitiva.

CV: O que Bragança Paulista representa no cenário musical atual não só do rock como da música independente?
G:Talvez muitos não saibam, mas a cidade é há muitos anos parte do circuito nacional...isso em termos de shows, artes e etc. Grande parte das bandas (uma boa parte) diria já teve sua passagem por aqui. Inúmeras bandas estrangeiras já passaram por aqui, as gerações foram mudando, mas grande parte das pessoas que hoje colabora para esse crescimento musical são as mesmas de anos atrás, que estava com intuito de realmente realizar algo na cidade. Isso também proporcionou muitas voltas destas bandas que já haviam tocado aqui.


CV: Quais os próximos lançamentos do Raro Zine?
G: A princípio a proposta é a sequência com o volume 2, só que agora contando com bandas de Atibaia (onde moro) do cenário metal. Estou finalizando materiais dessas bandas e aguardando algumas para um possível lançamento antes do fim de agosto. Para outubro/novembro uma terceira coletânea agora sem ser regional,contando com bandas que se tornaram amigas do zine e que se prestaram rapidamente a ideia de participar da compilação. Já estamos em andamento com um projeto sobre memórias fotográficas de shows, tanto de Bragança como alguns de Atibaia que contará um pouco da parte visual dessa época, retratado em fotos de alguns profissionais e nós mesmos que estávamos presentes neles (e que vai ter colaboração do próprio Canibal vegetariano) que também poderá ter uma edição virtual, para que todos tenham acesso ao material. E muitas entrevistas que virão, posso adiantar: Cólera, Invasores de Cérebros, Catarro, O inimigo, Periferia S/A e muito mais... algumas entrevistas com bandas que estarão no festival Autorock(Campinas) e estarei cobrindo pela primeira vez como Rarozine, o Cardápio Underground(Bragança Paulista) que logo divulgará sua programação.

CV: Ultimamente muita banda boa tem aparecido em seu zine. Como rola esses contatos?
G: Primeiramente obrigado pelo elogio, fico contente quando as pessoas comentam ou até mesmo divulgam o trabalho; grande porcentagem das bandas que já estiveram no zine são de contatos com os próprios integrantes anteriormente em shows. A partir daí ficou tudo mais viável nas entrevistas e matérias, mas quando não possuo contato, tento me comunicar com a banda, ouvir mais, conhecer mais a banda... a qualidade vem de que atualmente as bandas possuem um compromisso total com a música, por isso tantas bandas boas na ativa...

CV: Que análise você faz das bandas atuais. Muita gente diz que 'o rock morreu', você concorda?
G: "O rock morreu???". Do meu ponto de vista nunca, o que vejo é que há muitos querendo matar ele, mas sinceramente ele está aí para quem quiser apreciar, seja ele instrumental, punk, hardcore, metal, indie, etc.

CV: E temos uma cena em nossa região?
G: Não sei se existe uma cena concreta, unida e que apoie tudo, mas asseguro que na medida do possível as pessoas, as bandas se mobilizam para um contexto final. O público em si é diferenciado e enxergo também tons de insatisfação, de pessoas que somente criticam, mas não ajudam em nada, para um tal fortalecimento da cena, mas as coisas mudaram muito, mas as cidades possuem suas bandas interessantes mesmo com a predominante veia das bandas "covers", cidades como Jundiaí, Campinas, Americana, Sorocaba, Bragança Paulista, Atibaia tem seus nomes relevantes... mas ainda há gente que acredita num propósito da música underground...

CV: German, agradeço pela entrevista e deixo espaço para suas considerações finais.
G: Ao público em si, vejam com bons olhos para música feita no Brasil, o país é um dos maiores celeiros musicais no mundo, basta só procurar... vá em shows, tire fotos, monte uma banda, organize shows, divulgue, essa é a verdadeira proposta de uma cena... um conjunto de pessoas que buscam um só ideal. Quero agradecer todas as bandas que estão na coletânea e principalmente a vocês do Canibal Vegetariano pelo interesse e apoio! Grande abraço.

Impressões sobre 'Bragança Resiste'

Uma coletânea de bandas novas e outras que estão na estrada há algum tempo. O lançamento do Raro Zine traz ao ouvintes ótimas novidades sonoras, pois passa a limpo um pouco do cenário dessa cidade, Bragança Paulista, que há anos é uma das mais ativas no cenário underground e de vanguarda.
Em termos de rock há um pouco de tudo, indie, rock, folk, punk, metal, hardcore, música instrumental. Tem material para todo o gosto e mostra todo ecletismo de uma cidade que respira música, basta ver a quantidade de eventos que são realizados durante o ano. Entre as bandas de destaque desta coletânea temos: Leptospirose, Cheesehead, Framboesas Radioativas, Sonora Scotch e Druques.
Para ouvir ou baixar a coletânea acesse: http://rarozinerecords1.bandcamp.com/releases
Para ler as novidades do Raro Zine: https://m.facebook.com/rarozine